2012/09/14

[Entre Aspas] Minha cachorra gosta mais de você do que de mim!


A felicidade espera que a gente feche a porta e tranque as janelas, pra resolver tocar a campainha.

Às vezes a gente entra numa fase ruim, sabe? Ruim, tipo fundo do poço. Tipo, só de respirar já está bom demais. Respirar e esperar que o dia termine pra voltar pra cama. Não é sentir dor. A dor é antes disso. Essa fase é a de estar em inércia. Nada te muda, nada te toca, nada te dá esperança, nada te agrada, nada te faz sentir vivo. E o pior dessa fase é que você se fecha pro mundo, como se ele fosse banal demais pra você. Como se você já estivesse cansada e nada mais pudesse te surpreender ou te animar. 

Se guarda dentro do próprio mundinho estável e previsível e esquece do resto, sabe? Até porque, é bem mais fácil não se arriscar. Já se arriscou tanto, né? Algo dentro dessa mente estranha te faz achar que assim é melhor. Sem ganhos, nem perdas. Certo? No final você acaba achando confortável estar no fundo do poço e se acostuma com essa vidinha. Acontece que, entre todos os dias em que tudo estava “normal”, surge aquele que você achou que seria como todos os outros também, mas é o dia em que tudo vira do avesso. 

Não é um grande dia, pra falar a verdade. Nada parece mudar, até que muda tudo. É o dia em que aparece aquele cara que você nunca tinha reparado na vida. Você não dá muita bola, claro. Não deixar as pessoas entrarem é a regra da casa, desculpa, cara. Dois, três, quatro dias e tudo como sempre esteve. Como eu disse, não era nada. “Difícil falar com você, heim?”, você disse. Alias, quem é você mesmo? Só um cara. Mas era de noite e eu não tinha nada pra fazer e nada pra perder também. “Só um pouco difícil”, respondi. Só um pouco estragada demais pra começar alguma coisa, pensei. Daí a gente conversou a noite inteira. E o outro dia também. E o dia depois do outro. E sempre. Eu não percebi até que fosse tarde demais que eu não estava mais no bendito fundo do poço. E que medo. Da conformidade de estar sentadinha e encolhidinha no escuro úmido lá de baixo pra estar abruptamente nessa luz e nesse sol e nesse tudo que você me trouxe.

 Eu tenho um puta medo, como eu já disse. Mas dessa vez o medo é de voltar pro poço, porque eu descobri novamente que estar acordada e do lado de fora e feliz é a coisa mais bonita que existe. Você surgiu e minha conformidade foi embora, junto com minha bagagem, meu passado, meu pessimismo. E eu não sei me acostumar com essa coisa de ser feliz. Mas eu sinto que posso ser agora. Mas eu nunca quis mudar. Não queria mudar até te propor um encontro maluco na igreja. “Você vai?” “Eu vou”. Ele não vai. Impossível. Eu não vou. Ele foi. Eu fui. E eu sorri de verdade porque, mesmo estando assustada, eu me senti tranquila. Como se estivesse numa calmaria no meio da tempestade. A gente mal se tocou e eu mal olhei pra ele, mas foi o melhor encontro que eu já tive. 

Uma semana, duas, três. E já era. Você acha que nunca vai acontecer nada, até que acontece tudo. Eu, 40 minutos atrasada, vendo que você esperou por mim o tempo todo e abriu um sorriso quando me viu, em vez de fechar a cara. Você trazendo uma barra de chocolate e guardando o desenho que eu fiz da minha cachorra dentro da mochila. Eu disse uma vez perdida que gostava de pandas e, no meu aniversário, você chegou com um panda de pelúcia embrulhado e me deu de presente. 

Era madrugada de uma terça e a gente já tava se falando no telefone por umas três horas, você me disse “Eu tenho que te perguntar uma coisa no sábado”. Eu te chantageei por horas até você me dizer logo que era. “Se não eu morro, por favor.” “Tenho medo da resposta.” “Vai esperar até o sábado pra saber?” “Queria fazer algo especial.” “Tem mais especial que uma ligação na madrugada de uma terça feira?” “Então tá, vou falar.Daí a gente começou a namorar. E eu te faço engordar aqui em casa. E minha mãe te adora. E minha cachorra gosta mais de você do que de mim. Você não sabe, e talvez nunca vá saber o que fez na minha vida. Mas todo mundo sabe. Todo mundo sabe, repara, comenta. Todo mundo percebe a mudança. Eu acordo de bom humor, almoço de bom humor, faço piada, rio de tudo. E ninguém lembra, nem eu mesma lembro, como eu era antes de você chegar. E cara, a única coisa que eu sei, é que eu não sei de nada, mas estar assim me faz perceber que eu me atiraria no fundo do poço três vezes seguidas se fosse pra sentir mais um pouquinho o que eu tô sentindo agora. Graças à você.”

Iolanda Valentim, é dona do tumblr Ivalentim.



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